Toda a casa está revirada, mas tudo está ajeitado.
Roseli providenciou o limpa geral, ela sabe mais do que eu tudo o que deve ser jogado.
E algumas coisas nem quero mexer, deleguei prá ela, na boa.
Questão de sobrevivência.
Hoje a família de catadores que passa aqui toda semana teve que fazer 3 viagens, de carrocinha.
As roupas que não são usadas pelas 3 mulheres dessa casa são tantas, que botamos em malas grandes, estão na sala aguardando minhas providências. Vou vender num brechó, afinal de contas já dei um tantão e tenho que montar a nova casa.
Hoje separei fitas de video e LPs que levo amanhã num sebo prá vender. Nunca pretendo ouvir nem ver de novo, prá que ficar guardando tranqueiras???
Aliás, tenho que mandar arrumar o som, primeiro. Com essa coisa de CD no carro, no laptop, no cú, botar um disco na vitrola virou música antiga.
Levo os livros, os CDs, as roupas que separei, uma cama de casal, 3 colchões, um guardaroupas prá mim, microondas, algumas plantas, quadros, enfeites pequenos, coisas de banheiro, tábua de passar roupa, ferro elétrico, eletrodomésticos úteis prá cacete e mais nada.
Todo o resto será novo, de verdade.
O apto é de cômodos bem menores que minha casa, tem 3 dormitórios com armários pequenos, cozinha montada, uma sala com 2 microambientes, uma sacada que cabe minha rede nova, de casal, lavanderia e boa.
O piso foi trocado, está super bem conservado, fica num point nobre perto do centro da cidade. Mas na parte legal, numa rua tranquila.
Estou ansiosa e feliz pela mudança, já me vejo lá, toda lampeira no novo cantinho.
Agora toca embalar coisas, prá variar.
No sábado os homens da minha vida virão prá ajudar: Zé e Diego.
Bia vem, Manu talvez venha no domingo. A galinha morta vai escapar do furdunço.
Mas o quarto dela, ela arrumará, claro...
E até que cheguem as novas aquisições, vida de acampamento: sentar no chão, pedir comida pronta, dormir em colchões, etc.
Vai ser divertido, com certeza.
Vou tentar contar tudo, afinal o Netcombo vai chegar lá antes de mim, com TV, fone e internet.
Muié moderna é assim, dependente da tecnologia prá tudo.
Estou fazendo as malas para meu novo cafofo, a casa tá uma zona. Cheia de bagulhos prá tudo que é lado, gzuis!
As fiotas já ajeitaram seus quartos, eu consegui separar as roupas que vou dispensar e mais um tanto de coisas.
Descansei quase nada no findi, estou muito remexida com tanta coisa para re-olhar.
Cada bibelô (véia essa...) que boto a mão me traz uma lembrança.
Mudar dói. Mas começar de novo faz um bem!!!
Muito trampo, inscrição num congresso internacional, mandar artigo científico prá lá, corrigir trabalho de alunas, cuidar dos últimos detalhes da mudança e uma festa à fantasia na quinta à noite com o Zé.
Meu texto e minha cabeça estão como a casa, um furdunço.
Uma das "membras" perdeu um ente querido na semana passada e, numa roda conversamos sobre perdas.
Falamos também da dor do abandono, das nossas convivências em família, e choramos.
Certamente pela ausência de nossos pais, pela saudade de nossos filhos, pelas nossas noites de solidão, pela falta de um companheiro, pela presença de um companheiro ausente, por nossas dores.
Foi muito bom e, ao mesmo tempo inusitado.
Sempre rimos muito em nossos encontros, o clima é de celebração. Só que ontem escolhemos celebrar nossas perdas.
Na verdade, todas estávamos de luto pela dor da nossa amiga.
E depois ainda rimos um bom tanto, brindamos, saboreamos uma salada de camarões, um peixe fantástico servido em manjar de coco e acompanhado de farofa de coco e arroz, e um sorvete de baunilha com molho de manga e calda de chocolate.
O entrosamento foi tanto que a caloura esqueceu de servir o vinho que acompanhava a sobremesa. Ninguém ficou de porre nem alta, não tivemos tempo prá tomar o café, mas nos despedimos mais ligadas do que nunca.
Onze mulheres tão diferentes, em momentos tão ímpares em suas vidas, que conseguem se encontrar para rir e, eventualmente chorar (se for o caso), apenas pelo prazer da amizade.
É que aquele abraço que nos damos, na chegada e na saída, nos faz mais fortes para encarar a dureza de alguns momentos que vivemos.
E relembrar a crueza dessa puta dessa vida: nascemos sós e morreremos sós mas, durante esse espaço de tempo, convivemos com pessoas que vamos amar profundamente. Outras nem tanto.
"- Dotora, a senhora tá igual uma menina, com esse vestido... nem aparenta a idade que tem!!
- Que coisa boa!! E quantos anos você acha que eu tenho?
- Ah, a senhora num deve ditê mais do que 50...
- Num tenho mesmo, eu tenho é 46!!!
- Num falei? Nem parece!!!"
Depois desse diálogo construtivo e animador com um dos pacientes, "garrei forte" no Chronos (60 anos e +), protetor solar 50, limpeza de pele, retoque no Botox e no preenchimento de sulcos com Restilaine.
Ah, camisetinhas e calça skinny da Hering prá remoçar o visual.
Putz, remoçar entrega demais, né?
O espelho entrega, o vocabulário entrega, a pelinha em volta dos zóio entrega, os peitos entregam, a bunda entrega, a putaqueopariu entrega também.
Nada de especial, jantamos juntos aqui em casa, papeamos até cansar, no maior calorão dos infernos que tem feito nessa terra.
Hoje ele voltou para SP cedinho e eu estou no batente.
Clínica de manhã, PUC de tarde com meus alunos-calouros, coisas mais doces desse mundo.
É simplesmente fantástico ver o desabrochar de um futuro médico.
E poder participar dessa história, colocando alguns tijolinhos de consciência social nas suas cabecinhas deslumbradas é mais maravilhoso ainda.
Ou maraviwonderful, como diz Jairete.
De tardinha encontro as fiotas que virão pro findi em casa.
Jantaremos juntas com o Diego, o super-genro-fiote-mor.
Amanhã terei zilhões de aptos para ver, tenho que me mudar até 7 de abril.
E devo encontrar com meu leão-gatogrande à noite, se tudo der certo.
Ou no domingo, se tudo também der certo.
E se não der nada certo, ainda assim será bom.
Porque nessa puta dessa vida eu tenho filhas, fiote-genro, trampo delícia, pesquisas legais, alunos gostosos, amigas prá falar merda, amigas prá falar coisa séria, diversão prá mais de metro, família com problemas, e tudo como manda o figurino.
E prá completar, nesse findi rola o "72 horas de loucura", uma puta liquidação no xopicentis da cidade.