Diante de insistentes solicitações dos leitores, o conselho deliberativo desse blog informa a todos que a pessoa que ocupa a presidência de tão renomado bagulho encontra-se curtindo o findi com seu namorado, longe de tudo e de todos.
Assim sendo, a dita pessoinha não vai postar porra nenhuma até segunda-feira, quando retornará absolutamente feliz para os seus afazeres domésticos, profissionais e escrevinhísticos.
Até lá, os nossos nobres leitores podem se ocupar lambendo sabão ou catando coquinho na ladeira.
Ontem foi assim, cheguei no Ambulis absolutamente macha, pronta prá guerra.
Os inimigos tinham ido mais cedo prá casa.
KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
Esse governo estadual não é sério, mesmo.
Trabalhamos na boa, todos satisfeitos.
E eu com uma puta cólica intestinal, daquelas de torcer as tripas, por conta de um suco de polpa de uva que encarei.
Eu amo isso, mas raramente tomo, pois tenho intolerância à alguma coisa das uvas.
Vinho tinto também não me cai bem, dá diarréia.
Cheguei em casa morta de dor, banho morno e chá quente.
Melhorei e fui pro jantar da confraria.
Já na entrada quem me abriu a porta foi a fiota da Ju, um doce de garota.
Estranhei, pois ela é simplesmente, de longe, a melhor das donas de casa do nosso grupo.
É a impecável.
Na mesa da sala nada estava como costuma ser, tudo meio colocado às pressas.
Daí começou a paiaçada.
A soja temperada que ela serviu tinha caruncho.
O champagne tava dez, tomei só um tiquinho por causa do mal estar, mas a taça de cristal demorou a chegar.
Claudinha achou meio fraco o belisco servido e encarou um pacote de biscoitos de polvilho que achou na cozinha.
Eu fiquei na água.
No meio do frege, acabou o gás.
Foi um delírio.
Ninguém entregava os botijões que ela usa, uns grandões de sei lá quantos quilos.
O jeito foi terminar de fazer a carne de sol servida em mini-abóboras (com catupiry), no forno elétrico.
A entrada de legumes gratinados também foi pro forno elétrico.
E Cida descolou um arroz de microondas que ficou perfeito.
Não sem antes dar um piti no micro, que num funcionava direito.
A sobremesa era de arrasar: sorvete de queijo, sorvete de doce de leite e uma calda de queijo cottage com flores de laranjeira, tudo servido em taças, misturado, que era de tomar de joelhos.
Bem, confesso que, na gaveta da cozinha, todos os talheres da Ju estavam organizados, um de bundinha pro outro.
Como sempre.
E a caloura teve uma crise de dor de cabeça que a fez dar PT no sofá da sala, desalojando o Bruno, o fiote da anfitriã que desmaiou num canto.
A cena da Anita deitada toda esparramada com uma almofada estampada de abacaxis cobrindo a cara foi devidamente fotografada, no sofá da sala de TV.
Coisa de botar na web.
Depois de tanto sarro com uma dona de casa sempre impecável, chega o marido, que tinha feito plantão até umas 23h.
Ao ouvir nossas queixas, dizendo que tudo aquilo era uma trama para forçá-lo a mudar logo de casa, olhou desolado prá Ju e disse:
- Que vergonha, isso é falta de organização. Eu faço a minha parte.
Num deu outra, todas caímos de pau.
E a Ju só ria, e muito.
Pela primeira vez ela ficou leve, depois de uma pequena afobação inicial, com todo aquele desatino na casa.
E pelo que eu senti, tirou de letra e se juntou às risadas.
Como não tinha gás, fomos tomar um café na Real Conveniência, à uma da manhã.
Aquele bando de muiés bem vestidas, meio alegres, falando alto e continuando os papos.
E a maledicência com vips da cidade que dão bafón.
Nisso a caloura já tinha sarado e estava no maior gás.
Mas a convidada especial da noite, a Beatriz, um docinho de coco com 20 dias de vida que foi levada pela mamãe Ivana, comportou-se como uma lady.
Nanou quase o tempo todo e, quando acordou, nem chorou.
Mamou, arrotou e voltou prá sua caminha no sofá da sala de estar.
Nem bem veio ao mundo e já foi apresentada à farra e aos odores de um espumante servido com boa comida.
Que foi feita por mãos tão descoladas, que nem se assustam mais com falta de matéria prima.
Como fogo, por exemplo.
Essa é a nossa alquimia: fazer piadas de nossas falhas, driblar a falta de ingredientes, acolher nossas dores e comemorar nossas alegrias.
Uma vez ao mês, pois a energia liberada nesses encontros é tanta, que costuma nos sustentar por trinta dias.
Ou até mais.
Em tempo: o fiote da Ju escreveu uns bilhetinhos "Boa Confra" prá cada uma de nós. Não é uma lindeza?! Aqui vão as fotas...
Hoje tem Ambulatório de tarde, momento de definições.
Vou com tudo, acordei pronta prá botar prá foder.
E que seja o que tiver que ser.
E de noite tem jantar da Confraria, onde posso afogar as mágoas... num Veuve Clicquot que Juju vai proporcionar a todas, com fartura... como sempre!!!!
E estou de boa, pois tenho ouvido meu novo ídolo, o Diogo Nogueira, filho do João Nogueira.
O cara é fera, afinadíssimo, super repertório, samba no pé, acompanhado das melhores produções de samba do Rio.
E é um dos autores do samba enredo da Portela deste ano.
Além de tudo, valha-me Deus, dá um caldo que eu vou te contar!!!!
Então olhe só a gostosura que ficou esse vídeo com Lobão, Diogo Nogueira e Marcelo D2 (nada é perfeito, então esse último entra de lambuja!).
E eles cantam Nó na madeira, inspiração perfeita pro dia de hoje.
O sol sai tímido e sua ausência tem um poder enorme sobre a minha disposição.
Sou leonina, ascendente em áries, absolutamente solar, fogo com fogo.
Nesses dias de nuvens os olhos ardem e só quero me aquecer ao sol.
Mas não é possível.
Enquanto isso corro pro espelho do banheiro e baixo a manga da blusa.
Ali nas costas há um sol que brilha, colorido.
Foi para esses dias que providenciei um sol em mim.
Em uma rápida avaliação geral tudo segue muito bem: filhas em paz, embora Bia esteja infinitamente gripada, genro está bem, Manu recomeçou o cursinho, ambas instaladas no novo apto em SP, minha casa foi vendida e tenho boas perspectivas de ir prá um canto legal, com a minha cara.
Na minha clínica a agenda segue gorda, lotada.
Coisa mais boa, essa!
Na facu tudo rola gostoso, mas o Ambulatório corre riscos.
Vou esperar o caso se concretizar para tecer meus comentários.
Não sofro antecipadamente, mas sei que a rolha será grossa.
E minha sobrinha de 15 anos está grávida.
O fato me entristeceu, ela é uma criança nascida e criada no interior, como eu fui.
Nunca dorme fora de casa, não viaja sem os pais, é bastante quieta, tem um olhar triste, poucas aventuras vividas.
Namora um rapaz legal, o pai da criança, que é outra criança também.
Todos se uniram para apoiar, eu cogitei outra alternativa.
Mal pude me expressar, estou ausente, distante e sou somente a tia.
A decisão está tomada, e a vida da minha única sobrinha vai seguir um rumo bastante diferente dos seus sonhos: muito trabalho, dores, tristeza e um amadurecimento forçado.
Que nem banana climatizada.
Ou igual à criança que anda sem gatinhar.
Lógico que uma criança traz alegria para uma casa e para os seus pais, nem discuto isso.
Mas a sua criação envolve um preparo emocional, físico, psíquico, moral, social e financeiro que uma garota de 15 anos não tem.
Isso também não se discute.
E tem o Carnaval, que eu nem me lembro mais para que serve, exceto que costumo descansar e reunir mais forças para tocar em frente.
Dessa vez vou precisar.
Principalmente por causa da ausência do sol.
Que certamente se escondeu para matutar sobre tudo o que acontece aqui embaixo.
Pela demora em reaparecer, deve estar mesmo muito acabrunhado.
Há vários anos a gente tenta orientar e punir os veteranos adeptos do trote violento.
Estou nessa desde aquela fatídica ocorrência onde queimaram um calouro aqui no campus, na tal “Maratoma”.
Na verdade existem muitas coisas envolvidas nessa tradição.
Os cursos de Medicina são altamente concorridos e, uma aprovação dessas sempre desencadeia uma liberação de impulsos contidos, que acho natural.
Comemorar é da alma humana.
Os veteranos, por outro lado, querem mesmo incluir os novatos na instituição.
E também querem comemorar o fato de não serem mais calouros. Principalmente os do segundo ano.
Que sempre serão calouros dos mais velhos.
Junte tudo isso e acrescente aí os desvios de conduta e teremos o trote violento.
Sim, porque as humilhações, as agressões físicas e verbais, os constrangimentos todos que alguns impõem aos bixos, são sim, desvios de conduta.
Coisa de gente que tem sérios problemas afetivos a serem resolvidos.
Ligados à agressividade e ao poder, sempre.
E são gente cafona, out, brega, desatualizada.
Sim, porque o bacana, o moderno, o in é ser inclusivo.
Inclusivo e gentil, divertido, brincalhão, bem humorado, inteligente.
E gente inteligente consegue se divertir demais fazendo os outros se divertirem também, e tirando algum lucro disso, por que não?
Atente para os trotes solidários da UNICAMP, UNIFESP e da POLI/USP.
Os caras montaram um puta esquema onde fizeram parcerias com instituições patrocinadoras, vendem mimos com grana revertida prás Atléticas e ainda curtem uma big festa.
Onde só vai quem quer.
E alguns organizaram doações para ONGs, ou então para os Hemocentros.
A campanha “Dei meu sangue prá entrar na faculdade” é super inteligente.
Enfim, inteligência e leveza é prá poucos.
O resto continua naquela miudeza de mandar ajoelhar, pedir a benção, impor brincadeiras constrangedoras, e mais mil invenções estúpidas que sempre vejo.
Por aqui o hábito de obrigar a comer alho, beber pinga exageradamente, tirar a roupa e desfilar na madrugada, pedir esmola nos semáforos ainda continua.
Bastante reprimida pela instituição e por professores, mas persiste.
Já arrumei a agenda lotada, estou dando conta de tudo.
E com baixo custo, confesso.
É, a idade faz a gente bem mais serena prá enfrentar hecatombes.
Porra, tem que haver alguma vantagem em se ver no espelho absolutamente despencada a cada dia, nénão?
Então, que seja essa leveza prá dar conta dos BOs da vida.
Fortaleza foi muito legal.
Curtir de verdade a praia, sozinha, do jeito que gosto eu só consegui um dia, na quinta-feira pela manhã.
Nos demais fiquei zanzando incomodada.
A música nas barracas era ruim, algumas comidas idem, um caminhão de crianças pedindo comida (passando fome, né?), muita puta brazuca com gringo italiano, aquela porrada de ambulantes oferecendo merdas, o celular que tocava prá burro...
Enfim, na minha cabeça, esse astral não é o de praia que gosto.
E esse papo de “ah, só de estar em Fortaleza...”, num pega comigo.
Consigo estar feliz e curtir tudo em Pirituba (aliás, adoro estar lá), e posso me sentir absolutamente incomodada em Paris, Neviorque ou Londres.
Ou seja, você já entendeu tudo.
O curso foi nota dez, a melhor turma de todas que já dei aulas por lá.
Dedéa faz um puta trabalho, que melhora a cada ano.
As alunas envolvidas venceram o calor, o cansaço e a rotina maluca de trabalho mais estudo e mergulharam com tudo no aprendizado.
As aulas fluíram com tranqüilidade, divertidas, todo mundo prestando atenção até o final.
E eu dei o sangue prá ensinar e sacar o feeling do grupo o tempo todo.
Resultado final: satisfação de muito mais do que o dever cumprido.
Agreguei novas amigas na minha vida, com certeza.
Ah, as alunas me deram uma rede de casal (super king mega size), vermelha, bordada, linda de morrer.
E um cartão feito à mão, absolutamente simples e carinhoso.
A hospedagem da Dedéa foi de arrasar.
Ela tem o dom de nos fazer sentir bem, em sua casa.
Isso é para poucos, sabia?
A volta foi tranqüila, exceto pelo mico do aeroporto.
E por aqui tudo está bem.
Assinei a venda da minha casa na segunda-feira, saio em cerca de 40 dias daqui.
Isso me faz muito feliz, quero um novo espaço, para essa nova vida que já curto há quase dois anos.
Agora toca caçar um apê legal prá me mudar provisoriamente.
E depois, com muita calma, procurar aquele canto novo que vou comprar prá mim.
Quando encontrar.
A clínica está bombando, agenda lotada.
Coisa rara nesses tempos de crise. Aliás, que crise é essa?
Prá mim que os maiores interessados estão realmente faturando em cima desse papo, botando fermento em algo que existe, mas poderia ser bem mais leve.
Obviamente que visando lucros. Como sempre.
Êta mundo besta.
E começaram as aulas na facu.
Nesse ano estarei com o 3º. MED, numa turma super hiper mega power boa.
Deu prá sentir o ritmo do grupo já no primeiro dia.
Saí da aula totalmente no gás, absolutamente satisfeita com o trabalho que teremos pela frente.
E hoje começo com o 4º. MED, numa turma que já dei aula, em atividades práticas no Ambulatório.
Finalmente consegui colocar esses alunos naquele espaço que tanto curto.
As relações entre hospital e facu não andam boas, mas acho que dá prá fazer coisa melhor no meu microcosmo.
Assim, essa é a meta de hoje.
Na semana que vem começo com os calouros do 1º. MED.
Já sei que virá aquela baboseira de trote, etc, etc.
Farei como sempre: monitorar os veteranos que conheço, puxar as orelhas necessárias, fortalecer os bixos prá enfrentarem os mais ousados e registrar o recado:
“Só é brincadeira quando todos se divertem. Se um não se diverte, o nome do lance é violência.”
Todos já sabem disso, mas não custa lembrar, né?
E tem o Zé.
Que está bem desanimadinho, mas apruma logo, com uma nova overdose de carinho.
Que vou providenciar rapidinho.
Afinal, ninguém aqui é de ferro, e a gente adora uma sacanagem, nénão??!!!
Dormi por 11 horas seguidas, acordei de cara inchada.
Esse rosto não é meu, pensei na frente do espelho.
Como diz o Rubem Alves, eu tenho cara de menina...
O que houve comigo?
É que minha alma está mole, vazia.
Pelo excesso de morte que o sono me fez viver.
Café da manhã e decidimos voltar à Praia do Futuro, pois hoje teria um buffet de frutos do mar, no almoço.
Dedéa odeia chuva, acho que ela é feita de rapadura.
Diz que seus amigos de Campinas costumavam tirar sarro dela, quando chovia:
- Dedéa corra, venha ver a chuva, é água caindo do céu, menina, olha que coisa mais linda...
É que no sertão nunca chovia, né?
Então ela se encheu de cremes pelo rosto e corpo e fomos pro mar.
Novamente a barraca, nos instalamos em uma mesa melhor, muita água de coco, um livro do Rubem Alves prá eu me distrair, óculos escuros e começou a cantoria.
Um crioulo de Moçambique, dono do maior vozeirão, cantou de tudo acompanhado de um violão e daquelas maquininhas de reproduzir um som de orquestra.
Uma beleza de se ouvir, cantou música prá chorar, prá lembrar, prá rir, dançar, pular, gingar, sambar...
Minha alma voltou a ficar feliz quando ele cantou a música que partilho com a Manu: What a wonderful world.
Fizemos caminhada na beira da praia, curtimos demais nossos papos.
Simplesmente me fartei de tudo o que é bicho do mar. Que não são frutos, eu insisto.
De novo, comi com fome, então tudo parecia mesmo um manjar dos deuses.
Tinha mariscada, peixada, peixe ao molho de camarão, peixe na brasa, arroz com os tais frutos do mar, e mais mil opções.
Ah, muitas frutas, sobremesas deliciosas.
E chuva leve, que parava de vez em quando.
Mas com calor e nuvens.
Lá pelas tantas irrompe pelo palco um transformista, cujo personagem era a Maria Gasolina.
Não teve prá mais ninguém: ela dançou, rebolou, fez caras e bocas, sentou no colo dos turistas, tirou fotos, nos matou de rir.
Tinha criança com medo dos seus óculos pink enormes e aquele vestido lilás cheio de flores aplicadas.
Homens engraçadinhos fazendo pose e tipo.
E mulheres que se divertiam muito.
Todo mundo cantou, bateu palmas.
Lá na frente o mar mandava brasa numas ondas enormes.
Voltamos prá casa, Dedéa tirou um cochilo e vim para o notebook.
Escrevi três posts de uma pancada só.
Agora vou tomar um banho e caminhar sozinha pela avenida da praia.
Prá olhar gente e coisas, sentir o cheiro do mar estragado pelos homens.
Simplesmente um domingo perfeito.
P.S. Já fui e já voltei, comprei castanhas de caju e doce de caju em pedaços.
E cansei de ver preços de rede de casal, que aqui eles chamam finamente de king size.
Serve prá dormir de dois e prá vadiar, em dois também, né?
Papeamos até madrugada, prá botar uma parte do assunto em dia.
Dedéa é uma amiga de alguns anos, coordenadora do curso de especialização em Estomaterapia na UECE, uma enfermeira prá lá de porreta.
Nasceu no interior no Ceará, filha de fazendeiros. Estudou na UNICAMP, fez mestrado, doutorado e voltou prá sua terra.
Daqui foi fazer especialização em Pamplona, pois ela é podre de chic.
Mas nunca deixou de ser sertaneja.
Adora bolo de milho queimado, daqueles que desandaram.
Come pudim de leite com batata chips, uma inovação gastronômica.
Dorme numa rede linda de tecido, que ela instalou em cima da cama, lá no alto.
Ou seja, ela trepa na cama, prá subir na rede e dormir.
Diz que é mais fresco e anatômico.
Num discuto, ela deve ter razão.
E toma banho no banheiro da empregada, bem pequenino e acanhado.
É que lá ela usa a água da rua em temperatura natural, ou seja, quente.
Água de chuveiro esquenta demais, diz ela.
Seu apto é todo decorado com tecidos e móveis de artesanato local, com muitos detalhes das viagens que fez pelo mundo.
E é totalmente delicioso.
Seus vizinhos são Tasso Jereissati, Cid e Ciro Gomes, no canto mais in da cidade.
Segundo ela, esse povo vive perseguindo-a:
- Bastou eu me mudar prá cá, e eles vieram todos, pode uma coisa dessas??
Ai, ai, ai, será que o Falcão num mora aqui perto, não?
Ela afirma que nunca o viu por aqui, só caminhando pros lados da feirinha, na avenida da praia.
Vou andar por lá até afundar o chão, quem sabe num trombo com ele?
Bem, no sábado tomamos café da manhã e fomos prá Praia do Futuro, um lugar meio isolado, cheio de barracas bacanas.
Escolhemos a Coco Beach, com piscinas, restaurante, chuveiros, armário com chave na barraca de praia, banheiros legais e um completo serviço de praia.
Lógico que, só prá me afrontar, Dedéa logo pediu um caranguejo, que ela comeu com o maior gosto, chupando aquelas patinhas peludas, bebendo o caldo nojento e comendo colheradas de farinha.
Eu fico de tripa virada só de sentir o cheiro, pois uma vez ela me fez provar a tal iguaria.
Argh, me inclua fora dessa!!!
Show de pagode (nem tudo é perfeito, certo?) e Dedéa logo fez amizade com uma loira italiana, a Maria, que degustava um espumante na mesa ao nosso lado.
Totalmente maquiada, cheia de jóias, lencinho pink no pescoço, morava na Sardenha.
- Em que lugar da Sardenha, Maria?
- Costa Esmeralda.
- Lá eu só conheço Porto Cervo.
- Dio mio, eu moro lá mesmo!!!!
Foi uma festa, ela morreu de alegria pelo fato...
Maria e Dedéa chacoalharam os rabinhos ao som do pagode a tarde toda.
Eu fiquei olhando o mar, curtinho aquela visão maravilhosa e me enxerindo nos casais de italianos com cearenses, imaginando histórias.
Enquanto comia (e que fome!) carne de sol, paçoca, arroz e mais feijoada e mil acompanhamentos.
Será que eles se amam? Ou é só turismo sexual?
Mas alguns se apaixonam, né?
E as meninas, vivem de dar o golpe nos gringos?
Ah, aqueles dois parecem apaixonados...
Mas tem um com a maior pinta de casado, que veio prá cá só prá afinar o pau.
Aquele outro é bem atrevido, fica olhando todas as mulheres de maneira grosseira.
Enfim, o dia passou e voltamos prá casa.
Fizemos supermercado, lavei umas roupinhas, matei a saudade do Zé, vimos a novela das Índias, que é uma lindeza de cenários.
Eu estava morta de cansaço, pelo calor excessivo, o fuso horário que mudou, e fomos dormir cedo.
Mil providências prá tomar antes da ida a SP, corri que nem doida prá dar conta de tudo e deixar a casa em ordem, na minha ausência de uma semana em Fortaleza.
Fui pro aeroporto de Guarulhos a bordo do Zé, todo preocupado com o meu horário.
Pegamos um dilúvio na Marginal, ouvindo as dicas de trânsito. Quase na entrada do aeroporto eu abro minha boca de caçapa prá dar um palpite e mandei ele pegar o caminho errado.
Ok, ok, achamos um retorno mil quilômetros depois, ele querendo manter a serenidade, mas com uma certa dificuldade.
Com gentileza me mandou ficar quietinha que ele tava morto de saber o caminho.
Eu também, mas costumo errar...
Check in feito, tava na hora do meu embarque.
Ele olhou bem sério prá mim e disse:
- Deveria ser proibido uma mulher do seu tamanho viajar sozinha. Olha só o perigo, toda atrapalhada, parece uma criança. Acho que vão te impedir de entrar sem um adulto do lado.
Achei graça do comentário vindo de alguém que nunca economizou prá dizer que sentiria a minha falta.
Mas isso eu já sabia, cansamos de dizer um ao outro.
Daí ele decidiu falar diferente. É um homem muito especial mesmo, esse meu amor.
No avião começou o forfé.
Cheio de cearenses com aquele sotaque, lotados de malas, uma bagunça.
Ao meu lado um véio totalmente trapaiado, com um moço cretino que pegou meu lugar na janelinha.
Deixei ele ficar ali, mas antes confirmei com ele que aquele lugar era meu.
Do outro lado dois tios partilhando o fone de ouvido do iPod, e comentando alto as músicas.
Na frente deles um outro com cara de bobo, agarradinho num livro de auto-ajuda e que, na hora das turbulências enrolou um terço no braço e garrou a rezar.
Deve ter chegado todo cagado, pois tivemos mais de uma hora de turbulências, com os aeromoços desesperados insistindo prá todos ficarem sentados com seus cintos.
A desobediência foi tanta que teve uma hora que eles queriam apelar:
- Gente, putaqueopariu, dá prá sossegar o cú na cadeira e afivelar a porra do cinto??!!
O comandante entrou em cena e implorou umas duas vezes, em português, em inglês e já tava lançando mão do esperanto, quando a coisa aquietou.
Daí serviram um micro-lanche gelado de queijo e vento e as bebidas.
Nessa hora o véio do meu lado resolveu acordar:
- Tem suco de manga?
- Senhor, temos laranja e pêssego.
- Então me dê um.
- Laranja ou pêssego, senhor?
- Me vê um sem gelo.
- Qual o sabor, senhor?
- Num tem de manga, mesmo não?
- Não, meu senhor, somente laranja e pêssego.
- Então pode ser de pêssego.
Nisso eu já estava espumando, pronta prá socar a fuça do desinfeliz.
Sim, instalada no corredor e com o véio no meio, tudo isso se passou nas minhas barbas.
- Agora eu quero um café.
- O café será servido no repasse do carrinho, senhor.
- Então a senhora me vê um, sem açúcar?
A aeromoça arrastou o carrinho sem responder.
Gente sonsa merece o paredón, definitivamente.
Uns 20 minutos depois, o besta degusta seu café e olha prá mim:
- Café repassado é ruim demais, num é não?
Finalmente chegamos em Fortaleza.
Minha amiga Dedéa estaria me esperando no desembarque, como sempre fez ao me receber.
Quando eu passo a porta e chego no saguão, empurrando meu carrinho, uma banda tocava aquelas marchinhas antigas de carnaval, na maior animação.
Faixas saudavam a chega de Jack, a japa.
Familiares de chapeuzinho, todo mundo gritando e cantando.
Desabei a rir, encontrando minha amiga:
- Dedéa, como você está bonita, mulher!!!
- Gi, você viu que contratei uma charanga prá lhe receber??!!!
- Charanga??
- Essa banda que toca aqui chama-se charanga, veio prá lhe alegrar...!!!!
Paiaças, ambas caímos na risada.
Dedéa é bem esperta de fazer sucesso na aba dos outros, nénão?
Pois saiba que eu adorei a brincadeira.
Que na verdade, deve ter sido o que ela queria fazer: me receber com banda de música.
Essa estadia será perfeita, só falta ver o Falcão e tomar sorvete de manjericão...